terça-feira, outubro 05, 2010

corrente sul

é como uma nova passagem, uma nova corrente a me guiar
a necessidade de fortalecer os músculos e a cuca pra não pirar,
ou ser tragado de repente pela voz suicida da rotina
desmanchar as preces em cera de velas verdes
essa composição de descasos ocasos nús
batem a porta pra te pedir licença pra viver todo dia
e você nem pra vir ver o que está acontecendo lá fora
só entreabre o olho esquerdo embaçado de anestesia
e se enfia entre os dedos das mãos
antes de perder os pais e irmãos
ou a si próprio em meio a essa multidão de adaptados pratos fingidos
hoje tô afim mesmo de um sacrilégio espiritual
queimar essa cortina de aparências ignorantes e ouvidos entupidos
ir morar na plenitude simplória do matagal
mas sou podre e nojento demais para beber do pérfido tônico fluido
fico a contar as horas de conhecer outra dimensão
talvez seja minha condenação por não estar preparado pra ver esse mundo
onde defendemos ideais oriundos da ponta dos narizes sortudos
detentores da natureza do domínio dominical
fazedores de certezas e moldes fenomenais
que nem existem
apenas vieram servir-los
e persistem na convicção torpe dos horários e outdoors
pra mim resta a poeira e a vergonha de nada fazer
e assistir toda essa merda acontecer
e ter vontade de ter nascido ave para apenas triscar a superfície do mar com minhas patas
sem precisar me preocupar com o lastimável destino certo do mundo
fenecer

Um comentário:

Caio Fabricius disse...

Essa vontade de ter nascido ave...