sexta-feira, dezembro 31, 2010

feliz novo ano novo

parece que a felicidade vem acompanhada sempre de uma novidade. por isso o ano novo parece tão feliz. depois fica velho e acaba ansiando pelo novo ano novo, que sempre vem desde que começaram a contar os anos. pra alguns ele vem com cara de diversão. pra outros trabalho. pra outros estudo. pra outros, moribundos, tudo igual. mas pra mim não existe ano novo. nós é que renovamos nossos planos e objetivos. necessitamos de uma data para fechar o ciclo. a roda do tempo. e refazer, reconstruir, reformular, reformar. assim como a superfície que sofre erosão e se modifica, caminhamos para o novo afim de torná-lo velho. de novo e de novo. mas que seja feliz todo recomeço buscado. que seja abençoada toda a mutação em pról da paz, do amor e da harmonia entre os seres que habitam nosso querido novo planeta. que seja amparada toda vontade de fazer o bem. e que a felicidade reine nos novos dias de glória e graça.
um feliz e próspero ano novo a todos!

quarta-feira, dezembro 29, 2010

chuva

Eu sento na calçada esperando a chuva passar. Junto com o lixo urbano e o sono do transeunte que se encosta e dorme debaixo da marquise. Alguns devaneios me rondam. Será o dilúvio? Um cigarro pra aliviar a ansiedade. Parece que não vai passar. Mas sei que no livro sagrado dos cristãos está escrito que em água não acaba, não. Não o mundo inteiro. Mas acaba um tanto de coisa. Um tanto de casas, um tanto de famílias. Graças a alguma coisa que apelidei de sorte estou aqui; o mendigo, a chuva, eu e mais dois amigos, o cigarro e o isqueiro. Não tenho pressa. Me demoro a pensar na chuva. Vem limpar, renovar nossas vidas. Fazer nascer um novo ato, um novo momento. Assim gosto de imaginar: o dilúvio dos sentimentos humanos. Que lave a mesquinhez, o orgulho, a ganância, a soberba, a covardia, o ódio. E nos deixe a sutileza de amar a natureza.

terça-feira, dezembro 28, 2010

conheça-te

por que pensar na solidão se não estou a sós comigo? mesmo estando isolado, estou sempre comigo mesmo e comigo outro. migo mesmo sou eu quando não sou o outro, migo outro sou eu quando não sou o mesmo. mas todo outro diferencia de outro mesmo, e todo mesmo diferencia de mesmo mesmo. o que sou então? o mesmo de sempre ou o outro de nunca? O que sempre pretendo ser como sempre sou ou o que sempre sou pretendendo ser como sempre? como sentir solidão se o pouco de mim que conhece a mim mesmo pode não ser o que penso ser... só mesmo se a solidão fosse a própria diferença entre os vários de mim que, quando não se reconhecem a si próprios, me transformam em algo que não sou. então sim, agora posso ver também como a solidão de cada um difere da de todos. cada um vivendo a própria solidão e ao mesmo tempo a companhia de todos os outros. ainda acho que a solidão devia ter outro nome. devia se chamar isolidão, o isolamento de mim mesmo feito por mim mesmo, tornando todos os possíveis eus diferentes entre si. causando uma grande discordância entre todas as minhas formas de existir e enfim me tornando algo que não sou, ou ainda, algo que queiram que eu seja. quanta solidão existe, então! só de pensar, todos sendo e exigindo que todos sejam a mesma solidão conjunta... sem perceber que é a diferença o próprio elo, o que nos torna complemento e completo. talvez a solidão seja por fim um momento de esquecimento de mim, por acreditar que devo ser o que diversos poderes manipuladores querem que eu seja. solidão é perceber que muitos já não são o que são para servirem aos xerifes da sociedade e já não são capazes de reconhecer a própria solidão. a própria vontade de ser a si mesmo fica esquecida. conhecer-se e ser livre é o mesmo que ter a plenitude de nunca sentir solidão, de reconhecer no aprendizado da diferença a si mesmo.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

genealogia

meus espíritos ancestrais
uma força da natureza
psíquica sintonia
unidade e entendimento
partilha e comunhão
paz e alegria
afeto e afeição
família, dela sou
feto, criação.
se me criam com amor,
amor serei,
se me esquecem
não esqueçam, sou você
família, amor
alegria.
Sou vocês,
com vocês, em vocês
a minha impressão,
a mesma vezes três.

alma
corpo
coração

DNA
divindades
crenças

opções
hábitos
obstruções

mas em tudo
o mesmo fado
a mesma invenção
macro-cósmica

do que precisamos?
e se partilhássemos
todos os dias...
é uma sugestão
que me fez
a história da vida
que só é contada
uma vez por ano

quando não somos
o que acreditamos
quando não sabemos
em que acreditar
quando acreditamos
demais no que supomos saber
estamos deixando de ser
O que somos juntos,
família,
partilha,
amor,
alegria.

terça-feira, dezembro 21, 2010

dias de luz (deumaluz...)

Quero ir em equilíbrio
ficar sem esperar
pegar carona no ar
encontrar o amigo no acaso
indo pro mesmo desígnio
com fruta no pé
mágica nas mãos
areia na madrugada
sorriso pregado
dedilhando segredos
pensamentos falados
inversonogomia
no alto da torre
a lua entre os dedos
coco no chão
e pernas no mar
boas amizades tenho aqui
a viola a cantar
saudoso verão
vem me presentear
com o caloroso sorrir
do poema a jorrar
quero ficar
nesse papo pra sempre
sem me preocupar
pois horas não existem
pra quem tem tempo de amar
eu vou correndo
me jogar nesse abraço
num salto no espaço
entre as nimbus a desenhar
minha micro-imaginação
mergulhada na morada
plasmada na própria criação

sexta-feira, dezembro 17, 2010

lado esquerdo

Do que vale a pena
Alisar o que nasceu enrolado
Deixa encaracolar,
Como caracóis
Vão a se enrolar
Parece que vai sonar
O centro do suor
A casca, casaca, casa, asca,
Entre os bytes e gens
Conhecimento tecnológico
Planejado, aperfeiçoado
Melhoramentos em todos os lados
A décima que é debaixo
De cima do cacho
Qu’inda não despencou
De cima do baixo
Desdobramento interioexterior
Meu senhor é a vida!
A natureza, a força,
A certeza de nada
E tudo que é o vago
Negro iluminado
Indecifrado lume que vaga
Gume do meu passo
Afiado
Protegido
Domesticável porém
Com carinho e amor
Cumplicidade e respeito
Vou junto com você
Se vier comigo
Mas se quiser vamos
Pra algum lugar
Onde possamos sempre estar
Algum bom lugar
Onde pousemos a repousar
Nossos abraços e dores
Que querem ejacular
Feito lava de vulcão
Feito espuma
Menstruação
Coisas inesgotáveis
De movimento e criação
Novas fases, novos ares
Novas compreensões
Algumas até contrárias
Que nos faz pensar será
Essa nuvem programada a passar
Esse sonho esquecido a guiar
Minha essência querida
Que me deras mar
Sou sua sólida averbação somática
Suo sua sórdida vontade de tornar-me terra
Ar, como gostaria de voltar
A ser criança a nadar
Em lugares sem esgoto
Solto feito fumo bom
Feito garoto
Nu e pronto
Pra viver em paz
Pra viver em amor
Pra dizer, por favor,
Vivam a paz!

quinta-feira, dezembro 02, 2010

qq bobagem

o mesmo que ontem não foi hoje
vc pensa que é certo mas muda
vc tem que se distrair de vc
ahaha nem pode se aproveitar
vai indo feito desapegos forçados
feito desassossego alado
que isso?
vai só, dizendo tanta coisa
q talvez convença vc mesmo
ahaha mas eu nao to nem aqui
é só qq pensamento a flutuar
tá td mundo qrendo chegar primeiro
sem saber o quanto é maneiro
viver o mundo no seu ritmo
sou louco para muitos
mas pros poucos que me amam
sou o próprio amor

quarta-feira, novembro 17, 2010

Gratidão

O meu medo é o que me torna forte
força que vem do mar
das ondas, das correntes que me libertam
me levam a todos os cantos
me levam ao norte
sinto as ruas vazias
mesmo dentro de casa
visto minhas asas e asias
e de volta estou ao sul
respirando o sol
vou na beira do azul
e me mergulho em mim
na imensidão desértica das minhas veias
busco a ligação primordial
compreendê-la melhor
mas sem esforço não há regozijo
não há terra fértil que me alimente
nem morada celestial
que me acolha com risos
e abraços de amor
com humildade e respeito...
Agradeço-te, vida!

sábado, novembro 13, 2010

morro vivo II

E morrer é assim todo dia
Sem a missão que acho ter
Nenhuma escolha me diz 'sorria
Estou sendo renovada'
Sou agora nova forma de educar
Nova vontade de mudar
De fazer a roda aumentar
Nada, tudo é pouco pra saber
23 livros devo ler para o vestibular
Sem contar os que são pra vestir, burlar
Contar, bem escrever, interpretar sonhos
E pessoas...
Além da natureza pulsante das veias terrestres
Rios e lagoas...
Secando...
E tantos engenheiros a mando
De quem não sabe amar
Por promessas e dinheiro
Vieram o mundo modificar
Olhar o fundo da alma de Gaia
Da lama espessa ao gás braseiro
Criaram assim os anos da evolução
A melhor forma de lucrar...
Necessidade humana
Felicidade engarrafada,
Carinho embalado a vácuo...
Comida envenenada
Cadáveres torturados
Vivo a morte todo dia
E ela chega com caldo de alegria
Pra disfarçar o agonizante fardo
Dos escravos da industrialização
Pouco a pouco menos vivemos
O fim começa a brotar de dentro
Do coração paralisado pelo sal
Os pulmões asfixiados pelo gás
Enfermidades desconhecidas
Temperam a salada
Junto com inseticidas
Como posso escapar?
Se não sei de onde vem...
Vem de dentro pra fora
De fora pra dentro
De dentro agora
Contorce-se a vida
Resistindo assim todo dia...

domingo, novembro 07, 2010

morro vivo

Eu morro assim todo dia
Um pouco de pó e fumaça
No ar da minha melancolia
Fez a vidraça da minha veia fraca
Vir à tona pra tomar cachaça
Vira, toma de um gole só
Não sou fato nobre
Portanto faço o meu melhor
Mesmo que sejam três ou quatro doses
Amanhã tento recuperar o nó
Água de coco na garganta
Nem sei se adianta...
Com o chão seco feito boca
A minha sobriedade rota
Me pede insanidade boa
Girar rápido de mãos dadas
Fazer história na minha pousada
No meu quarto que falta metade
Enquanto soo meus versos afoitos
Sinto-te perto pouco
E morro como quem renasce

sábado, novembro 06, 2010

Finge que não me viu...

finge que não me viu\ vira o rosto para evitar\ um olhar estranhamente conhecido\ um dia que não quis reconhecer-te\ por causa do mau-humor\ ou uma briga ou desamor\ fiz questão de não lembrar essa cara\ meio torta, meio chapada\ virada pro lado oposto\ sem gosto nem composto\ que seja apresentável ao mundo\ também já me senti assim\ não queria nem olhar pra mim\ e fingi desconhecer tudo\ fechado, feito ostra\ olhava a frente sem dente\ sorrindo banguela\ feito uma velha com cheiro de naftalina\ sentei-me no banco atrás dela\ aquele odor me possuía\ me fazia lembrar minha tia-avó\ que morreu com 94 anos\ dormiu na varanda e não mais acordou\ chorei no velório com o lenço ‘naftalínico’\ desci do ônibus e meus olhos abriram\ se quem finjo não ver amanhã morrer?\ imagine se morro amanhã...\ perdeu a ultima chance de me cumprimentar\ e nem lenço você terá pra lembrar.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Vôou

Não sei mais pra onde vou
Não sei mais pra onde vôo
Não sei mais pra onde vou
Não sei mais pra onde vôo
E se vou, é pra lugar nenhum
Esse vôo é pra alugar nenhum
E se vou, é pra lugar nenhum
Esse vôo é pra alugar nenhum
É pra alugar nenhum lugar nenhum
É pra alugar nenhum lugar nenhum
E se lugar nenhum estiver pra alugar
Vou-me embora de lugar nenhum
Vôo de volta pra onde vou
Vou de volta pra onde vôo

quinta-feira, novembro 04, 2010

passara

passaram pássaros por aqui
mas não tem ninho seguro em 2010
vieram trazendo o despedir
são as placas, os postes, as calhas
nova casa em que o dia é eterno
levaram com vento memórias
sonharam criar uma história
e os pios, os cantos e latidos
já tentam acordar a cidade insônia
uma e cinquenta da madrugada
já tem luz confundindo a alvorada
e a voz tão suave que alenta
já está rouca e inflamada, doente
tanta luz pra cegar
tanto vão pra sugar
as crianças, o futuro
de quem depende?
finge-se surdo, cego, obtuso
assim talvez veja o destino da revoada
é saudade o silêncio no escuro
displicência esse sono dormente

terça-feira, novembro 02, 2010

Liquidez

Obejetos subatômicos unidos
Micro-aspectos sinérgicos telefactos
Projecionismos teleféricos, ás inócuo
Ó vertigem temperada por meu ar
Raro e feito anacrônico gás fátuo
Universos, únicos versos próximos
Vez em quando impróprios egos
Uniformes, os olhos dormem sobre
Meu intrépido soberbo fúnebre ato
Plana séria chuva viva, mas decrépita
Precipita nobre pele, gota indelével
Leva o leve e úmido floco, liberdade
Até onde a volta seja quase certa
Seja minha vértebra e válvula forte
Onde nascem os meus braços bases
Equilíbrio invertido do eco norte
Supra sumo soma ao som da sorte
Escudo intransponível às inverdades
Meu próprio néctar sabor de mim

segunda-feira, novembro 01, 2010

Olhos no escuro pra tentar ver melhor,
De perto, o (in)certo devir que sou eu.

sábado, outubro 30, 2010

A foz do rio

Furado feito fé
Como bicho-de-pé na mão
Um espaço na foz do rio
Levou-me a outra dimensão
Elefantes bailarinos cantavam hinos
Mantras de cabeça no chão
Sentei-me na parede para ouvir
Enquanto o vento beijava minha testa
Desenrosquei os cérebros das arestas
Até encontrar cavalos-marinhos-voadores
E fadas cheias de dores nas asas
Loucas por uma bela massagem
Bebemos seiva de orquídea rara
Até afundarmos nas petúnias rasas
Sorriamos enquanto sentíamos dores
Vindas dos membros superiores
Cheios de invejas e inflamações
Então catei minha mala vazia
E voltei pra onde não preciso levar nada
Apenas meu coração

quinta-feira, outubro 28, 2010

des(cuidado)

No prumo da vasta imaginação
vou além de quem não vê
que basta fechar os olhos
pra não tarde entender
que de mim só fica a certidão
a pouca coisa que já fiz
nasci, cresci, tô aqui
mas o que sou e o que plantei
nem mesmo o rei pra consumir
como fiz pra ser eleito
ausência imoral da quarta
o mais anônimo perfeito
que pra dinheiro e pouca lealdade
não guarda espaço no peito
sim, sonho mais que criança
com febre de quarenta e três graus
mas não cabe ignorância
nas portas da percepção
pois quem rejeita toda dança
acaba preso na rota balsa
e nunca mais acorda na hora
nem a corda pra sair da nau
encontra... vai boiando
seguindo a frente
a fossa farsa falsa

segunda-feira, outubro 25, 2010

(des)culpa

Está na ponta da lei
A língua do estômago nu.
Cru desarranjo do chão
Flácido, desdobrado, onírico.
Mora ali no horizonte,
Feito vontade sem condição,
Ligação discreta com o rei
Entre satélites de Urano,
Suco da visão do meu lírico
Eu amontoado de revolução.
Gravando hora pra esquecer.
Fazendo das nuvens recruta
Da marcha foda do ano,
Eterna luta de projeção.
Constante busca,
Aceite minhas desculpas.
Se te errei de propósito.
Faltava quase tão pouco
Quando te fiz não me ver
Atrás desse azar rouco.
Mas meu irmão vem logo
Vem construir nosso novo balão

sábado, outubro 16, 2010

nova novidade

Sou essa coisa tão simples
Essa verdade que te dói
Sou o magma escorregando
Entre os ossos do cowboy
Você nunca diria
Estou assim
Só, tão distante de si
Quem me dera te encontrar
Mas de você restou cisto
Pois a distância te desfez
Mas não apenas ela
Toda sua tela
De nitidez se fez capela
Eu freguês
Das lindas donzelas
Expirando a tez
Da sóbria loucura
Tão pura doçura
Beleza quase nua
Sua vez!
Agora morde esses dentes
E disfarça a ira dormente
Que como jato
De lava viva
Anuncia
Voltei!

quinta-feira, outubro 14, 2010

será você

seu brilho me cega
sua guia me leva
entre sua lingua
e o inferno
me deixa esperar
tortura meu sono
desarruma a cama
e não chama na hora
canta devagar
sem avisar chegou
e prostrou a mão
que bela!
escorreguei na janela
para vê-la acenar
sem par, se foi
depois voltou
e foi demorando
cada vez mais a voltar
um dia desapareceu
fingiu que não viu
eu também esquivei
pra fugir do que
não sei

saí da foto

Quanta ignorância o 'querer aparecer' faz ter?
Quanto entendimento e sabedoria me dizes possuir!
Mesmo não tendo a principal elevação: humildade.
Reconhece em si mesma grandeza.
Julgando os pratos e peitos...
Pura fantasia!
Denegrir-se em ousada hipocrisia.
Pra não dizer outra coisa.
Transparente somos mais que pensamos.
Não me assusta essa pobre aparição,
Mais que as crianças pedindo na rua.
Ser estrela não requer esnobismo...
Nem dá vontade de dizer
Cresce!

quinta-feira, outubro 07, 2010

paixonite

Esse negócio de paixão
É um saco pro coração
Fechado a vácuo nem deixa o coitado bater
Fica tremendo insano
Andando de um lado pro outro
Sem sair do lugar
Não serve nem pra se perder
Fica sonhando acordado
Vendo espelho refletido em todo canto
Até no pranto dos bem-te-vis se apega
Vez em quando da uma de romeu
Tenta prosear legal e talz
Mas depois o pobre fica anêmico
Xumbrega
Quase não come de dor de nó na garganta
Esconde-se do sol das outras praias
Na acimentada primavera febril
Ouve a mesma musica a tantas
E só então lembra-se do lacre de emergência
Rasga o pacote
Sai louco feito trovão
Amedrontando até escuridão

Fernando Pessoa

exteriorinterio

toda energia
fonte de primazia
ontológica paternidade
suprema maternidade
deve ser respeitada
toda estrada
manipulada telepatia
jamais será eterna
só a terra
terna discípula
da vida fulgaz
ousada forma
digna da proteção
da minha microexistência
prosperará em meu
trabalho árduo
de consciência e evolução

terça-feira, outubro 05, 2010

corrente sul

é como uma nova passagem, uma nova corrente a me guiar
a necessidade de fortalecer os músculos e a cuca pra não pirar,
ou ser tragado de repente pela voz suicida da rotina
desmanchar as preces em cera de velas verdes
essa composição de descasos ocasos nús
batem a porta pra te pedir licença pra viver todo dia
e você nem pra vir ver o que está acontecendo lá fora
só entreabre o olho esquerdo embaçado de anestesia
e se enfia entre os dedos das mãos
antes de perder os pais e irmãos
ou a si próprio em meio a essa multidão de adaptados pratos fingidos
hoje tô afim mesmo de um sacrilégio espiritual
queimar essa cortina de aparências ignorantes e ouvidos entupidos
ir morar na plenitude simplória do matagal
mas sou podre e nojento demais para beber do pérfido tônico fluido
fico a contar as horas de conhecer outra dimensão
talvez seja minha condenação por não estar preparado pra ver esse mundo
onde defendemos ideais oriundos da ponta dos narizes sortudos
detentores da natureza do domínio dominical
fazedores de certezas e moldes fenomenais
que nem existem
apenas vieram servir-los
e persistem na convicção torpe dos horários e outdoors
pra mim resta a poeira e a vergonha de nada fazer
e assistir toda essa merda acontecer
e ter vontade de ter nascido ave para apenas triscar a superfície do mar com minhas patas
sem precisar me preocupar com o lastimável destino certo do mundo
fenecer

quinta-feira, setembro 30, 2010

umdiacomumdia

É questão de tato ou não
viver tentando a sorte no amor
ou passar 1 mês da sua vida numa fila
de um super-supermercado
1kg de alegria não da nem pra um dia
consumo tudo na hora
1L de sorrisos sinceros são suficientes
pois é caro e raro
Paciência e gentileza estão em falta
Pensei em só conversar com o caixa
mas a fila tem pressa pra sair
o que vim procurar aqui
ninguém sabe se existe
um dia chamaram de flor
outros chamavam lua, afrodite
querer bem, Eros, gostar muito
ah, tanta significação fez desaparecer
das prateleiras, das noites juntos
Mais que o sonho deixa viver

Pego todos os trens
sem querer desembarque
Apenas me interessa
a viajem com você
por isso embarco em todas
Mas não volto pra casa
pois a hora está vazia
a voz me fez rouco
na procura do oco avatar
que levaria onde essa agonia
de estações cheias e sedentas
seja apenas um bad dream

quarta-feira, setembro 29, 2010

Hipotergia I

Arte pela expressão corporal
Mostra que o comportamento
que é moldado pelo padrão cultural
pré-estabelecido
não deve ser seguido.
Não precisamos de dicas de como
nos comportar, agir ou falar.
Viva a arte da escolha individual.
Chega de preços, de propaganda,
dessa massificação.
Pra que roupas se posso me pintar?
A caixa representa o que querem
colocar dentro da minha mente,
mas não preciso de caixas a me dizer.
Vou dizer ao mundo com minha caixa redonda,
minha identidade quase esquecida
no consumismo.
Não quero um lugar para ir,
quero estar vivo em todo lugar,
aproveitar,
aprender,
despertar,
absorver...

quinta-feira, setembro 23, 2010

noite lente

Acordei com gosto de rock
derrubando uma pilha de necessidades quaisquer
desviei do negro óbvio
e me encharquei de nuvens aleatórias do véu
desvelado vedamento vulgarizado
furta tempo, troco pardo, rato alado
bebe a lasca esgotada água
és gota d'água
no chão da pedra pó de preto solado
do fio quase meio
vejo a porta bater no vento
corro a tempo pra perguntar pro ar
se a dor faz nota crua ou inventa
na morta tábua fria sortuda
o açoite é vida
a noite é lenta

quarta-feira, setembro 22, 2010

voz, muda

hidrobomba de dupla-alienação
deturpa nossa causa oportuna
destitui nossa supra-ligação
nossa vaga coisa imunda
nossa casa suja
afunda na dormência da escolha
estúpida propaganda falsa
que convence tantos sonhos
maquiagem, claquete, oratória
interlocução de vagabundos
senadores propinários
incompetentes salafrários
anarquismo é a minha
sem poder que me oprima
e me imprima condições
somos livres
não viram ainda?
eu proponho
(R)EVOLUÇÂO!!!

segunda-feira, setembro 20, 2010

Vou andando por aí
ceifando almas brothers
almas plenas que me entendam
que eu possa compartilhar
esse mundo
esse plano de fundo
da nossa pobre existência
solitária
vivos poucos
nobres fortes
intelectos não infectos
complementos da falange
protegendo esse resto
de lealdade e honra
que só os porreta-de-coração
são capazes de cultivar
hora de juntar forças
escolher o lugar certo
e rumar prum novo ar
sem essa de 'individuismo'
sem papo de comodidade
o negócio é urgente!

sexta-feira, setembro 17, 2010

Já nem sei se penso no que sinto ou se sinto o que penso. Razão e emoção parecem ser o mesmo laço. Quando penso em não sentir já desfaço o que era. E se me sinto pensar de novo, me desprendo da certeza desse abraço. Quanta incerteza esse mundo me apresenta. Vago no caos, caio no vago vagão parado. Divagando na confusão saborosa das cores. Cores que sou tom sem ver de perto. Deturpo verdades para ver se ainda da certo. Mas viver só tentando parece bem chato para quem tem pressa. Será que existe cura pr'essa minha loucura? Será que consigo viver sem abrigo seguro? Meu terno amigo distante consigo ouvir dizer. Vai fundo, meu brother, esse mundo é todo pra ser dissolvido. Não pense que tudo se acaba no fim do domingo. Existe um caminho impreciso que só precisa seu olhar. Se ele pensa ou sente é o que as fotos que tira dirá. No entanto, é mesmo tudo mistura que da o tom pra mudar. Vai misturando!

quinta-feira, setembro 16, 2010

tomei parte do coração

Cheio de xilocaina na visão
divaga sem panela pra fazer feijão
Não vá mais atrás dela sem levar
cajado-jorra-amor de filme de ficção
Crava-lo na bandeja filha única
team master de fazer lipoaspiração
Inspira toda atmosfera tetra-cão
Na sua mortadela morte é só
tempeiro dela vívido de sensação

Para pé pois é hora de mandar cartas
Já é folga terra viva que me escorro
para saciar a sua sede deito morno
Ouço quase você pensar que me quer
na levada da sorte vou com a maré
sopro, solto, largo e volta
no sentido anti-horário
que é pra ficar mais legal
superstição de doido é confusão normal
fizeram parecer que é só ilusão
amor, você me renova, liberta
minha convicção
estoura essa cota de migalha
que disseram ser moderna
é o microsser-renovante
roendo a nossa perda
poroso, civilizante, cheio de balela

Só quero deitar nu mar da praia
sentir a ondulação
debaixo da sua saia
amar todo espaço escondidinho
falar coisas bonitas
adormecer no seu carinho
depois o nosso amor vai revolucionar
planar sobre o céu
enche-lo de arte a harmonizar
a fonte de onde vou ficar
com você
com vocês
que são todos meu par

sexta-feira, setembro 10, 2010

revolucionamos

Meu amuleto Minha guia
O convite Pra liberdade
Amor Verdade Incondicional
Suprema Proteção
Lealdade
Que duvido
Contradigo
Investigo
Sómensina
Que sou adversidade
Tanta rima pra que?
Nem me serve de nada
Só transgride O que parece
Poder ser Revolução
E se for? Espere
A condenação Pelo preço
Pago porco Dessa nobre
Mochila vazia Cheia de nozes
E de mins Cheios de vocês
Transmutamento Descuidado
Queria ter uma cerveja
Pra brindar nossa emoção
Mas não tem Niguém aqui
Mas só vamos percebendo aos poucos

quarta-feira, setembro 08, 2010

claro volto

Claro que me orgulho
quando entro no boteco
todos mudam de mesa
fazem do silêncio novidade
e eu só penso em pedir
algo mais forte
Uma vodca, por favor
com ela eu me dou bem
nem dor de cabeça
nem ressaca
nem essa vontade
de chutar a távola hipócrita
cheia de analíticos clínicos
que te observam
catalogam...
ah, primeiro gole de euforia
um dia apresento-lhes
a incrível loja de fast feelings
fiquei na hora
do jeito que queria
Uma dose de ignorância
pra esse cara aqui do lado
isso ele já tem de sobra
mas quem sabe ele vomita
no pé da porta de entrada
dito e feito
todos assistem agora ele
já sou mera figuração
sou da mesa dos que mais riem
precisava mesmo
dessa noite turbulenta
agora mais me orgulho
de ser quem sou
pois na barraca de fast feelings
eu só vou de vez em quando
enquanto ele fica mudo
só tentando se convencer
mas que besteira
escrevo tudo depois
só pra não esquecer
sou um peixe
que segue a corrente
ou contra ela teima em ir
única conclusão que tive
nem vocação pra conversa agradável
esse povo tem aqui
tem gente que salva
mas daí a gente some
vai pra praia
ver violão
e tocar o mar
quando mergulho
nem da vontade de voltar

domingo, setembro 05, 2010

o tempo, amigo

Vocês são cheios de censo
Cheios de lenços sujos
E outros olhos secos
Sem lacrimejos alguns
Só inoculares jejuns
Que te tornam novo
Disponível ao volver
Dois
Sovam as portas pobres
Os zíperes enferrujados
Jeans rasgado empoeirado
Feito adolescer, doutor
Ai vão eles
E eu fico a pensar
Um dia fui jovem
Agora quem será?
Sou ainda nobre velho
Jovem envelhecer
Nada diferente de você
Ah, la vamos
Um dia nos conhecer
Mesmo que demore
Só para não enlouquecer
Venha me visitar
E que venham velhos novos
Amigos a ver
Que se ainda forem
Quem disseram um dia ser
Talvez verdade venha ler

quinta-feira, setembro 02, 2010

moinho

não é minha mão que escreve
eu só escrevo o que o mundo
escreveu sem-tempo em mim
todo som obtuso
toda cor mistura
cada cheiro intruso
ou diferente textura
trança complexa de ‘ins’
inspiração ou incompreensão
invenção de transitoriedades
aleatoriamente combinadas
que modificarão verdades
não é mais selada a fonte
tudo que me sou depois
é fração do que foi antes
a memória impressa em meu nome
a captação dispersa de novos ondes
me faz figurar intenso
um caminho pro horizonte
e nesse moinho encontrarei você

quarta-feira, setembro 01, 2010

enquanto a mendiga samba

...samba triste a mendiga
que no colo a cola gruda
dorme fria na perna de pedra
da calçada na sombria rua
mas ela samba subversiva
sem saber se amanhã
irá comer ou bolar um
fritar de dia o couro
a pedir ao nobre rico
o pouco que pro lixo
vira sobra
veio a sobrar
do que pra merda falta
ser digerido pelo abdômen
adiposo da mórbida família
inovelada pela sádica falta
de compaixão pelo mundo real
o que de hipocrisia parece
se espalhar feito vendaval
no sorriso canceroso
do carbono preguiçoso
que a fumaça viva corrói
enquanto a mendiga samba

segunda-feira, agosto 30, 2010

vou agora mesmo, nesse minuto que passou

Eh
vou me chegar
tanta coisa pra rumar
tanto sonho pra sonhar
quase que me perco
na bagunça desse beco
só poeira
sobra tempo só pra rir
e torcer pra não sumir
nesse monte de faz-faz

qualquer hora
passa lá
pra trocar aquela prosa
se não tiver dizer
pode ser silenciosa
feito olhar de madruga
na janela debruçada
o rio de luz daquela joça

ou quem sabe num tropeço
soluçar sorrisos bestas
escrever amor no prumo
'semsaiar' algum começo
de fim
de mim partindo
de novo seguindo
o som-destino

vou lá

sigo o sino badalado
que só fala quando calo
na minha sina abafada
teus lençóis de furta-cor
de dedilhar meu quase ato
desaprovam meu pavor
quer meu sangue
provação
não sou santo
tampouco monge
mas tenho forte
o coração
que me leva distante
não tão longe
da pra ver
a sua mão
sombreada de sabor
sonho grande
sonho amor

domingo, agosto 29, 2010

não quero mais pensar
deixa fluir
desembolar
o vento marítimo
chega renovando
estação em estação
novo fôlego
depois da imersão
renova
revolta
na cortina de areia
vem com estalos
cavalo alado
me mostrar o tom
do amor
que não se perde em medo
da flor
que ainda em segredo
nasce
renasce
e me nutre de você
e se não for
desapareça
o seu disfarce
pra me abrandar
a alma argilosa
que por pouco
não se perdeu
na sua teia
perigosa

quarta-feira, agosto 25, 2010

desassossego

essa lúgubre estrada ensolarada
me cega de esperança
esse indiferente demônio
me desanima, me cansa
nem mesmo a rima
me faz criança de novo
pois já sou outro
cheio de sonhos perdidos
na bagagem algo esquecido
me fez desencontrar o norte
me fez perder a sorte
e de novo murmuro um canto
triste do adeus
de não querer essa façanha
amontoada na poeira
de desdizer minhas entranhas
o currículo que não quero levar
as besteiras que cansei de falar
já disse quase tudo
agora é hora de me calar
talvez espere um pouco mais
até alguém me presentear
contudo não vejo paz
no mundo o caos faz
desaparecer e reaparecer
das cartas do destino
o sentido do que vale
se meus cabelos estão compridos
ou a barba como vai
pouco importa, meu amigo
se já não posso olhar quem vem
na navalha afiada
fiz meu trilho
lá longe, aponta o trem
pra embarcar todo esse trago
pra desossar meu pobre zelo
vai e me deixa voar
me liberta desse apego
dessa dor pessimista
das notícias do desassossego

segunda-feira, agosto 23, 2010

Sacrilégio

Todo preço tem um acesso
nem toda variação
é o bom progresso.
Muito menos obtusor
como o motor,
que me leva pra lugares
iirrísórios e incorretos.
Mas do universo absorve
nuvem, fogo e robôs.
Sinto chegar ônibus
espremendo o fim do dia,
não me leva a nenhum fato.

Toda revolução a ascender
no balcão das super ofertas
discursa e tem no bolso retrato.

Tão querendo me vender algum destino.
Garantiram, mas mexeram em sonhos limpos.
Sugeriram que eu tinha uma escolha,
pois assim fico contratualmente livre.
Mas não deixaram eu comprar a bicicleta
que eu queria pra chegar no meu jardimbolha.

Só que um dia mesmo cansado, quase enfermo.
Mesmo atrasado, sem documentos e sem passado.
Estarei vivo em outro verso
ou num impresso que não foi lido,
ou só um dado
de uma cyber face.
Registrar me importa, é a porta do traço.
Do tronco, que me suporta.
No tombo, que me faz lívido
tomo equilíbrio pra ser de aço
e o discípulo de um sacro soro que é a vida!
Não tenho medo da renovação!

domingo, agosto 22, 2010

eleigão

Mas que merda do satanás
Na dá pra aguentar assim
não posso nem cagar em paz
que já tem gente querendo
convidar a sobra pra sair
vai e me deixa aqui
no meu trono flatulento
nojento, mas todo mundo faz
prefiro isso que perder
meu tempo com essa
tv pra burlar brasileiro
é sempre a mesma confraria
uns cagam, outros limpam
como a dialética da cidadania
e depois que digiro
vai tudo praquele lugar
nessas eleições já sei
qual botão vou pressionar
o da descarga!
xuáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

cria

cria cria, criatura
cria, cria, cria cria
crê no que depois
vai ser sua dúvida
cria tua nova fábula
cria em quase tudo
mas hoje descria
o caminho tortuoso
cria nova criatura
cria tua sinergia
que é vacina crua
contra(tua) alergia
cria nova
renovada fonte
cria em todo absurdo
nova caça, nova rua
ah, cria, cria, cria
essa bossa cria tua
é só dorso dalegria
que cansaço, criatura
perco a hora quando durmo
amanhã é outro dia
mas assim mesmo
cri a tua cria, cria, cria

quarta-feira, agosto 18, 2010

Colho amoras entre tragos
Olho em torno as possibilidades
Me cercam mas não me aguarde
Fazer nem uma parte desse cargo
Estudo a vida naturalmente
Encontro saídas e portas trancadas
Olhos vigilantes avisam pacientes
Que a sombra e vento
Não têm sórdida morada
Um passeio em volta
Me revela a verdade
Que agora é a nova clemência
Mas não garante a estada
Se quiser competir com as vespas
Adicione ao ferrão conciência

terça-feira, agosto 17, 2010

sonho tato

Esquenta meu lânguido tato
Desabotoa meu jeans e umedece
A boca cansada dos fatos
Apareça como sonho diário
Atrevessa com sopro quente
Minha viva carne mediata
Amanheça minha sombra dormente
Seja meu livro de cabeceira
Meu papel, minha letra
Absorva a pele rota e
Destoa a solidão da minha beira
Que te susurro no pescoço
Aquela melodia de ardor
Tange louca minha febre
Aconchegue a segurança
Do nosso quase amor
Cheio de desatinos e besteiras
Que adiam essa viga de lugar
Não despeça-se tão breve
Seja leve como flor
E me beije repentina
Até a noite acabar
Mas inadimitidamente
aquele devaneio ainda sinto
pois só não o digo... vivo!

segunda-feira, agosto 16, 2010

tinja cinzazul

Quando acordei ontem
pensei não ter ditongo
que me animasse.
Fiz rondas taciturnas em meu leito
a procura de uma alvorada alvoroçada,
mas o dia veio lento
e o sol quase nem me viu
Passei perto daqueles rabiscos
e alguns infames amores antigos
me disseram preu sair
Fui onde não lembro
Haviam tantos caminhos entre-passos
que me descobri na multidão de vagalumes,
tantos que não soube quem.
Na clareira, numa faca sem fio,
fiz morada na poeira da serra
Prolonguei a minha estada
deitado na manta da molhada grama
Quis a lágrima da chuva
na minha boca ressequida
Foram tantas amargas verdades
no cantejo dos lábios das fadas
que pensei não mais ter vida
Gritei mudo saraivada de palavras
obstruindo meus resquícios de esperança
Enquanto a fogueira de fogo fátuo
vinha pousando sobre meus calados pés
A dama as horas sagradas coroou
e minha porta fechada pronunciou três vezes
A morte é lenta mas voraz
a sorte venta, meu rapaz
a dor é forte, mas você mais!

Enfim decidi partir
Colhi as malas, os hiatos
e sumi dali

Vieram ouvir crianças o que vi
Desmantelei desconfianças
Nas aquarelas dela me destrai
Ensaiei tímido alguma canção
No fim aplausos de quase alegria
ouvi o dia cinza, quase engana,
desvela sambas, se perde aqui
na cidadela das falsas mangas
só dá pra ver cabides
de poeira e amarrotadas
velharias que deveriam
na chama pronta se consumir
Vamos, isso foi ontem
já é outrora nova fonte
profana e santa forma
do dia que agora
é meu faquir

sexta-feira, agosto 13, 2010

Rápido

Preciso dizer rápido minhas horas me devoram mas estou a correr pra dizer rápido que estou a pensar em você que daqui a pouco vou te encontrar em alguma bifurcação e te entregar uma canção de amor pra você levar pra onde for e correr rápido pra me reencontrar lá naquele lugar longe do acaso perto dos passos que vão nos orientar até onde ainda não sei mas vou rápido até esse dia raiar se me chamar estarei lá e não vou pra outra dimensão nem você vai virar nuvem a flutuar pois vou tão rápido pra te segurar em meu coração e seus olhos beijar e da angustia te curar e bem rápido vou lentamente te respirar em minhas mãos te acalmar e um novo caminho há de surgir um novo lugar há de sorrir pra nós dois que somos um assim tão rápido.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Observo

Da Terra há vista
Um espaço
Temida onipresença sem par
Sideral
Coisa escura sem leis a guiar
Cheio de vazios e etéreos contornos
Nada de bossa, rock’n’roll nem carnaval
Energias obtusas a se encontrar
Daqui de perto é só paixão
Olhar discreto destemido
Ansiando a resposta do infinito
Colateral
Dentro da órbita ocular
Certo das horas que passei
A esperar pelas respostas que amei
Ensinaram-me a desbravar
Questionar, duvidei
Do unissono da verdade
Reciprocidade turva
Que desertam meu sonhar
Reflexo
Abrupto de mim
Novas histórias, indivíduos
Que sou sem saber
Sou você no fim
E você é eu a dizer
Que entender não basta
Conhecer é casca
E não amar querer
É sorver
De saudade

domingo, agosto 01, 2010

vento que te beija

O vento que te beija
a ave que no ar graceja
a certeza, a cerveja
compartilhada
o encontro, a partida,
a chegada
Na distância horizonte
fumaça polida
a ilha
o mar
a despedida
Há muitos pés aqui
muita vida e paz
mas o que eu queria
já é outro dia
tarde que clara faz
eu sair por aí
desvelando a saudade
que luzia
...mas o que eu quero
é ser o vento

sábado, julho 31, 2010

Não inventa uma desculpa
não invada o absoluto
não discuto
pois assim eu sou melhor
eu sou astuto
Caçador de prateleiras
inventor de verdadeiras condições

Toda essa sua elevação
escorrega no metal
desintegra o social
vira tudo alienação
Original é propaganda falsa
que disfarça
mas não nega
a contradição

Carnívoro!

terça-feira, julho 27, 2010

Magnólia

Magnólia, olha
olha para o céu
o tempo passa e você nem nota
o luar encoberto
você parada na porta
o tempo passa e você nem nota
olha, Magnólia
é noite a várias horas
o sol já se pôs
e você parada na porta
olha para os lados
a vida é muito curta
os dias anda mais
não vá se queixar
se seus sonhos ficarem para trás
Magnólia, olha
não fica aí estatelada
como se tivesse perdida na estrada
os dias passam e você nem nota
a morte finda
apenas disfarça
pois aí nada passa
a noite às estrelas
olha, Magnólia
se não olhar
não vê as belas
maravilhas que sem ti
são cegas se
não vê-las passar
olha, Magnólia
pois só é belo aquilo que se passa
só é sentido aquilo que se abraça
mas a noite passa e você nem nota
Magnólia, olha
é chegada a aurora

segunda-feira, julho 26, 2010

regresso

Tchau
Agora que chego abre-se um vão
o lado do imã que expulsa vem
as derrotas na carapuça
as vitórias na mala de mão

A partida inevitável
arrebata sentidos
a despedida inadiável
não me sai dos ouvidos

Ela ainda não chegou
para me dizer o quanto foi bom
falou que amanhã seria melhor
e desligou

Jovem me apresento
Velho me despeço
Cansado ou desatento
Chega a hora do regresso

Oi!

quinta-feira, julho 22, 2010

desajuste

Esse sabor insípido
da superfície fria do espelho
Que fumega o trisco
do silêncio que me norteia

Solidão que é de dentro para fora
como olhar uma parede nua
é o passar lento das horas
a distância insossa e crua

Quando chover de novo juro
não desferir flechas no escuro
nem sonhar demasiado
nem morrer no primeiro ato

Os sonhos estão distantes
onde a abóbada do destino desencontra
a verdade sobre a turva ponta
que me descansa na sua sombra

Mas ainda o amanhã me fomenta
mesmo nas horas de triste sonolência
mesmo nos dias que não amanhecem
mesmo quando a dor me alimenta

Sigo como o visgo da suma afronta
que se agrega a novas rimas
a finda, a esquiva e a desmonta

Parasita da vida
infortúnio afortunado
acrescenta-me
atrozmente
atormenta-me
indecente

Ciclovias paralelas
velozmente desconexas
onde caibo
nas janelas?
Transeuntes de portelas
picardia de donzelas
onde encaixo
minhas pernas

Entre outros desencontros...

terça-feira, julho 13, 2010

Pela boca

Você é o que você come
e nem tudo que se come é pela boca
ou desce pelo esôfago
nem sacia só a fome

Algumas coisas não vem em pedaços
São transeuntes aéreos
Uns são pelas mãos, outros por abraços

Vem pela luz, pelo gracejo
pelos pés na areia,
o braço da viola
Vem pelo céu, distante lampejo

Das montanhas o urro
Do vento o assopro
Das cores do tempo
Dos cortes à casca
a nudez e os panos
Da morte ao nascimento

segunda-feira, julho 12, 2010

PARA [-BEIJOS] & [-QUEDAS]

Qualquer tarde de domingo parece ir vagueando pela janela lenta. Para despertar de tais períodos ociosamente diurnos faz-se todo aquele ritual de esperar pelo dia seguinte: segunda-feira. Mas até mesmo segundas são dias preciosamente inesperados...
Quando se olha de uma janela ao entardecer nem imaginamos o quanto as idéias estão a se dissipar em meio a tantos turnos e horários e planos. Se eu soubesse o quanto me espera num dia qualquer, talvez não vivesse e visse tantas imediações da vida. Mas foi quando a vi em meio a tantos distúrbios existenciais que percebi o quanto podemos evitar algo por simples incredulidade. Não me julguei por isso como costumo fazer na maior parte de qualquer dia da semana. Apenas a observei passar como se seu despenteio estivesse sob a minha janela. E mais uma vez esperava a segunda chegar.
A respeito de mim ela talvez soubesse mais do que ela mesma imaginava, e de repente já estávamos onde nossas peles encontravam o menor caminho de se encontrarem. Sim, achei muito confusa a brusquidão desse encontro de energias moleculares, mas também pensava ser mais uma dessas coisas que a vida cisma em derreter. E quando derrete não há temperatura que recupere o estado físico de antes. Como as coisas são torpes! Inventamos fórmulas para a vida como se ela realmente tivesse um padrão. Mas a verdade é que nunca se sabe como são as terças-feiras daquele senhor de idade que atravessa a rua com dificuldade de enxergar o outro lado. Eu apenas olhei para Ela e sorri. E senti como meu sorriso havia sido entendido.
− Olá! – ela me disse um dia depois.
E novamente nossos sorrisos se compreendiam. Engraçada essa história de conhecer alguém. Existe realmente algo conspirando em torno de todos os acontecimentos de nossas vidas? Já mudei de opinião sobre isso inúmeras vezes, mas aos poucos vou entendendo que somos nós mesmos que nos dispomos ao que vivemos. Sempre há alguma razão ou emoção envolvida, e que graça teria se não houvesse?! Talvez seja só um transtorno obsessivo da minha mente procurando sempre encaixar a vida numa linha contínua. Mania de qualquer ser humano, na verdade, de medir tudo que não seja controlável. As horas, os dias, o peso, volume, altura, profundidade. Eita mania besta!
─ Sabe aquelas estrelas ali? – ela me perguntou uma noite dessas. - ...devem ser uma constelação que não conhecemos. Digo não que só nós não a conheçamos, mas que ninguém no mundo a tenha batizado. Seria pretensão minha batizá-las da forma que eu quizer?
─ E por que não faz isso? – eu sempre faço essa pergunta.
─ Talvez não haja motivos para isso.
─ Os motivos partem de nós mesmos.
─ Constelação de mim!
Está aí, uma constelação inesquecível...

quinta-feira, julho 08, 2010

Andares

Vejo coisas e cores fora de foco.
Destono.
Desmancho.
Na garrafa de vinho me troco.
E é tanto amor em meu pesar,
que já não sei por onde andar.
Sopra vento de glória!
Me traga seu alento.
A erosão de minha derme,
Seu confortante tormento
É só o tempo que se atreve.
Quantos tons inventarei
nas telas de minha memória?

quinta-feira, junho 17, 2010

Comunicado

Eu não sou de ar
Eu não sou de terra
Eu não sou de água
Eu não sou de guerra

Eu só estou aqui para comunicar
A dor
Eu só estou aqui para comunicar
O amor que veio lhe falar

Comunicado, comunica a dor
Comunicado, comunica a dor
Comunicado, comunica a dor
Comunicado, comunica a dor

Eu só quero saber
Se há algo a se fazer
Se minhas simples palavras
Pudessem emudecer
incríveis construções, barragens e foguetes
represas, embarcações, industrias e internet
Falaria que o nada é o pior lugar
E que lá não se aprende, nem se pode lutar
Queimadas, poluição, esgotos e cimento
São todos criação do homem seu próprio tormento

E tanta fome, guerra até santa
Prisão, desonra por causa de uma planta
Diarréia, desnutrição, febre, cólera, aids
Enganam a população com páginas nos jornais
(que dizem)
Seja feliz, classifique aqui
Promoção de natal, vote em mim


(musiquei isso na madrugada de hj, rs... cantado fica melhor! =D)

sábado, junho 05, 2010

deus

se assim for
não me sou!
apenas me dôo
mas e então?
o que penso
sobre meu vôo
sou um ermitão?
um pagão
que se amedronta
diante o próprio chão?
não!
esse rótulo é só confusão
sua,
nua polidez!

sorrio

quem é assim tão sábio?

pure

Nem tudo o que sou é asilo
nem todo asilo me é exílio
sou apenas auxílio do free
at wait ser assim
pouco morno
nem contorno
algo dibetano
algo intrínseco ao ser
ao eu que somos
ao deus que nos tratamos
sendo o que sou
algo que sobrou
do que for
fores
flores
mas assim
inexplicávelmente
eu...

terça-feira, junho 01, 2010

encontro

ao acaso todas as coisas se casam
e se fazem sintonia perfeita
se tornam, ou ja eram complementares
apenas demoraram a se encontrar
é o acaso que move a aleatoriedade pérfida
dos momentos que chamamos de amor
o que nos parece mágico e trágico
o que nos nutre e assola a alma

por acaso alguém tem um trago?

terça-feira, maio 25, 2010

saudade

quero seus lábios como quero um mergulho
quero seus olhos para desfazer meu orgulho
e viver de carinhos seus...

segunda-feira, maio 24, 2010

gira roda

Gira roda, gira
diga quem vai ou fica
Roda gira, roda
se não passou ainda é hora

Tão distante é teu contorno
tão fulgaz é teu sorriso
quando vejo teu sonhar
sinto solto, leve o juízo

Um dia desvendarei valente
quantos mistérios vos fazertes
mais forte e sábio serei
com tua voz entre meus dentes

Ah, que bela tarde provaria
se minha vida fosse nua
se caminhasse pela rua
com toda nossa cantoria

Mas gira bola,sem timidez
pois é chegada minha vez
Mas roda,gira sem rugir
chegou a hora de me ouvir

domingo, maio 23, 2010

instante

De repente todas as coisas me saltaram
como se presenciasse erupções de idéias
mas todas misturadas como cores
tentei com as mãos detê-las
mas quais palavras usarei?
ainda não existem tantas coisas
só existe o que já foi
nesse instante todas as coisas me fugiram
e novamente me pus a pensar provérbios feitos

sábado, maio 22, 2010

espera

Essa espera pode ser longa...
melhor sentar e ler o jornal
melhor enfeitar as bordas das janelas
com um toque de desfoque
molhar as plantas secas
dar comida aos animais
desentupir a pia
lavar as roupas brancas
e dizer adeus a infância...
adeus aos cabelos
adeus aos amigos
familiares e amores
Ah, a encomenda chegou!
Até que foi rápido!

sexta-feira, maio 21, 2010

percepção

Por quinze minutos o mundo é de papel
desenho bolhas, paredes e cérebros
uma marcha de troços pelo céu

minha mente híbrida e insólita
caminha no tempo feito luz
distante sem fronteiras
uma porta me seduz

qual sabor descobrirei
por tantas vidas que velei
tantos tratos que selei

detras dela surge eis
sou eu outra vez
Agora me vejo aqui
entre emails que nem sei de onde vêm
tentando encontrar algo mais que palavras
mas aqui nada é de papel
só a impressora sabe
horas da minha tarde
em que poderia andar por aí
fazer palhaçada ou cantar
passei aqui mais uma vez
pra talvez dizer ao mundo
que interneticamente minhas palavras são tudo
e nada...

=)

quinta-feira, maio 06, 2010

Mensagem no escuro

O que fazer quando a vontade se esgota
Deixando na garganta uma dose de derrota
Aquela pronta para ser a última gota
Feito veneno que dilacera a vida
Deixando as veias entopidas
da adiposidade mórbida
dos dias que não querem ser
Tantas falacias inacabadas
que no findar da hora
me consome de fenecer
Noite maldita que me cala os sonhos
no momento da volta para não adoecer
Não diga ao meu peito aberto
sangrando e desnudo
que há tempo para tudo
só não há para sofrer
Pois meu choro é vela
ardendo na face do crente
que pede ao Tudo a chance de vencer
Mas de que adianta a luta
por justa proteção ao que é singelo e puro
se esse mesmo apuro
me causa hipócrita desonra.
já que a luta é por si violência
e com ela a clemência é mera delonga.

sábado, maio 01, 2010

quiz dizer a mim que não queria a ti
mas estava triste e cansado de mentir
esse discreto olhar não quiz permitir
assim fazer a ti ter saudade de mim

saudade que tenho do amor sem nó
a não ser o dos corpos entoando um só
sem injúrias, falsetes, desafinados em dó

é sem tempo da paixão ser o chão
dessa lida insalubre sem par nem mar
desses passos arados sem saber semear
dessa fé desatenta que acalenta a solidão

mas, não sei, não... sei!
quase perco a ti a todo instante
por não saber se ao te querer
estou a um passo de te não ter
amor é mesmo ardente
se não arde por ser paixão
arde por ser doente

sábado, março 13, 2010

Passo

Minha inspiração está no indescritível
Como se música pudesse ser muda
E toda transparência fosse nua
Mas não, nada se faz impossível
Tudo é uma imensa colcha tricotada
Cheia de nós de gargantas engasgadas
Evaporam-se até ardentes nuvens
Oriundas de um medo indizível
Inerente ao todo vivente
Que se agarra e se espalha
Entre as falhas dessa mentira algoz
Na qual fazemos nossa morada
Para tornar o amor algo veloz...
Habitando reações atômicas
De nossa pele em êxtase
Do medo de sentir o que um dia
Pareceu nunca mais poder ser
E após o sofrimento alvorecer
Uma despedida cheia de feridas
Uma tristeza ainda não sofrida
Quanto medo, quanto apego o desapego querer...
Sim, minha insanidade me faz monstro
Ela me vela prezados sentidos
Sinto-me tão muito pouco!
Às vezes por sentir esse oco
Permito-me viver o inevitável
Assobio o prelúdio instável
Das minhas horas incertas
Liberto-me como louco
A dizer hereges verdades
Que não me cabem ser ditas
E por isso me sinto saudades
Por isso me desejo mais vida

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

um devaneio qualquer

"Estranho pensar na vida como um eterno vai-e-vem desmedido. Estranho me sentir angustiado com coisas que nunca vivi, mas que sei que acontecem. Gostaria de ser um pouco menos questionador, talvez facilitaria a minha tão ansiada plenitude. Estou sempre me cansando e descansando de transformar minhas angustias em fumaça e alcoolismo. Como se ao evaporarem o alcoól e o carbono pudessem me transportar a algum momento de satisfação. O máximo que consigo é me aproximar de uma estúpida ressaca e de um câncer qualquer.
Essa mania de desconstruir as coisas ainda vai me enlouquecer. Já me vejo velhinho perdido entre a sala de estar e a cozinha espalhando meus absurdos obtusos pelos corredores da minha quase vida. Se eu pudesse guardaria toda paixão inútil, toda ingenuidade infantil e todos outros momentos que acho merecerem maior valor memorável para transformar tudo em um elixir contra a solidão mendiga que vejo cada vez mais próxima do meu futuro sofá vermelho de três lugares.
Só que agora já penso que ser tão questionador não seja de todos o maior mal, talvez seja na verdade a minha salvação, o que me livra de certos comodismos aos quais a raça humana vem sendo cada vez mais suscetível. O problema é que quando preciso escapar ninguém vai me oferecer alguma solução. É mais fácil instigar nos outros esse sentimento de impotência diante todas essas conjecturas malucas formuladas a partir sabe-se lá Jesus.
O amor é o que me torna sóbrio e mais próximo de mim."

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

divagações do fim de rock

Qual seria a surpresa ao sair numa madrugosa cidade do interior e não encontrar nada além do que pessoas em busca de prazeres. Mas não limite a palavra prazer aos ditos da carne. Tanto os prazeres mentais, sociais e, me atreveria a dizer, espirituais, quanto os diretamente ligados às experiências corporais aparentemente complementam as nossas necessidades.
Ao ver o olhar daquela prostituta da ponte, cheio de um indesejável prazer, consigo construir em minha mente o percurso de toda uma existência também indesejável; algo que escapa a simplicidade e obviedade de uma existência plena e harmoniosa com o mundo. Quem sou eu para julgar algo tão verossímil senão um filho da mãe que se despreocupa dos afazeres mais simples de um ser-humanóide moderno. Que vivência me justifica entender o olhar triste, desolado e sedento da puta como uma transgressão ao que eu desejaria à vida de qualquer criatura que seja? Nessa hora é que sorrio inconveniente. Aquele riso nervoso que me torna alheio a algum tipo de existência que me pareça sentencial, como um fruto de comportamentos padronizados pela moral majoritária ou qualquer preceito camufladamente aceito pela society.
Não sou digno de julgamentos, apenas descrevo minhas análises pessoais, que podem ou não ser descartadas. Mas não seriamos todos comparáveis a puta a espera do destino? O que pode parecer uma sentença no fim se torna mais um fracasso ou vitória colecionável. Acreditar naquela única saída enquanto o universo nos oferece infinitos caminhos. Se aproveitar de certas necessidades humanas para não fenecer diante dos inúmeros obstáculos que nos rende viver. Se agarrar a qualquer conveniência para satisfazer o que acreditamos ser de fato uma necessidade. Se entregar a algum prazer que pareça satisfatório. Essa sensação de satisfação é que nos faz pensar que o prazer é algo explorável e até negociável, o que acaba deturpando o sentido do amor, da amizade, da paixão, da compaixão, da própria experiência de estar vivo.
Só há sobriedade nas coisas que não sejam letais. O meu prazer está em viver tantas experiências diferentes em tão pouco tempo, sem esperar por momentos melhores ou piores, como uma criança enterrando as frágeis mãozinhas na areia molhada da praia pela primeira vez e experimentando as melhores sensações que a natureza de nossa existência pode oferecer. Denegrir, aceitar, ponderar ou ignorar são ações que identificam nossos pensamentos e o que fazemos com eles, só que ainda não sei qual é a pior delas. Cada momento de nossas vidas é irregenerável, passar por eles sem sorver no mínimo algo que possa me construir melhor é uma burrice irremediável na maioria das vezes cometida quando achamos que as coisas devem ser da forma que estão. Tudo é mutável e inconstante, a maior prova disso está no que você acredita ser o amanhã, mas que na verdade é sempre o hoje. Temos que aprender com as crianças.

terça-feira, janeiro 26, 2010

Sobre liberdade

Entre as cidades ainda existe um mundo
Correndo entre as árvores um homem vai
Fugindo do asfalto e do assédio dos carros
Despertando inocente o amor pelo mar
Ele pode sentir o vento
Ilustrar com estrelas o céu
Ele pode amar sem tempo
Fazer da areia o papel
Poetizar até de madrugada
E ali se expressar sobre a Liberdade
Dizer ao tudo sobre o nada
Cantar a noite com a Amizade
Mas...
Entre as árvores ainda existem cidades
Correndo entre os mundos o homem vai
Fugindo do mar e do assédio dos inocentes
Despertando os carros e o amor pelo asfalto
Esse não sabe o que é o vento
Pinta de negro o seu tempo
E definha entre as grades do ódio
Quem te libertará?

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Anedota cotidiana

Descontente com prudências exacerbadas,

às vezes me descuido em palavras

que ainda não podem ser ditas ou ouvidas.

Tento compreender e em mim traduzir

todo esse alvorecer de idéias a se fazer

nos momentos em que não almejo saídas.

Sair me parece vagamente uma despedida

feita de adornos e acordos quaisquer,

se fecham as cortinas e se esquece, se quiser.

Por assim ser me sinto insano,

quase o pano dessa cortina

que outro espetacular enredo espera.

É sobre primavera, fim do mundo?

Larga esfera de possíveis atos,

ou me vendo por um vinho barato,

que me será mais confortante

que as estantes de documentos

processuais das minhas íntimas questões.

Ou tento ser tão esperto quanto tantos...

Que audácia viver distante!

O que posso esperar desse afélio resfriante,

senão a própria alienação dos meus instantes.

A mendicância por se possuir,

a fome de se destruir,

o medo de se contrair,

é a vida tentando sair.